[Crônica] SE EU NÃO PINCHO. By Rubens Bizarro Romariz

26/01/2018 08:20

SE EU NÃO PINCHO

 

RUBENS BIZARRO ROMARIZ

rb.romariz@ig.com.br

 

 “ Engraçado. Os pobres, que poderiam ser avarentos, não costumam ser.”    ( P. C. Vasconcelos Jr.)

                   O verbo transitivo direto pinchar, segundo Aurélio Buarque de Holanda Ferreira, significa: impelir, saltar, empurrar, trepar, pular. Hoje são poucos que ainda usam o verbo ‘ pinchar’. Galvão nunca fala que o goleiro Rogério pinchou-se no canto do gol, salvando um gol certeiro do adversário.

       Pois bem, vamos a nossa crônica. Tempos passados estávamos na fila de um banco esperando a vez de ser atendido na democracia tupiniquim a “la moda brasiliense”, em fila de assalariados. A fila caminhava vagarosamente, ainda não havia ar condicionado, fator que incomodava a todos, quando a conversa simples de dois peões fez-nos todos compartilhar de uma história angustiante e, por que não, divertida. Angustiante, pois o sufoco que o pobre passa, faz-nos sempre seu defensor – divertida ou cômica, porque depois do “sufoco escapulido”, o riso é a forma com que os descamisados se socorrem como calmante à alma embravecida.

         Pois bem, iam a minha frente dois desses caboclos de botas sujas de curral, roupas ensebadas, chapéus rotos e sujos, exalando um cheiro de leite azedado. O primeiro era um pouco gordo e baixo, o outro magro, com barba por fazer há meses e de lenço vermelho atado ao pescoço. Disse o magro:

         - Cumpadre, ontem passei um sufoco danado.

         - Que foi que aconteceu, cumpadre?

         - Ontem à tardinha fui ao sítio do cumpadre Chico, para levar as sementes de amendoim gigante que meu irmão mandou, e aí...

         - Que aconteceu, cumpadre?

         - Sabe, a minha égua Rosita estava no cio, fazia quatro dias e eu nem cheguei perto da casa do cumpadre. Cê acredita, o cavalo inteiro que estava no curral, percebeu e começou um tropé danado, rinchando e dando peitada nas tábuas do curral. Aí, cumpadre, como eu já conheço esses perigos, me mandei de volta para a estrada afora em desabalada carreira.

         - É,  cumpadre, nesse caso a providência manda fugir.

         - Que nada cumpadre, a providência chegou tardia. Cê acredita que o cavalo do cumpadre  pulou a porteira e saiu atrás de nóis, aos rinchos e querendo morder eu.

         - Nossa, e aí cumpadre?

         - Aí, quando percebi que a Rosita não queria mais correr e o perigo se aproximava furioso, aí eu pinchei.

         - Pinchou?

         - Pinchei. Olha meus cotovelos esfolados e o joelho inchado. Cê acredita cumpadre, que do jeito que o cavalo veio, cobriu a Rosita com arreio e tudo, e se eu não sou ligeiro e subo no barranco ia levar uns coices do danado.

         - Mas cumpadre, cê não sabe que em égua no cio não se munta?

         - Que cumpadre, pobre hoje prá viver munta em qualquer garupa e nem se preocupa mais com o cio. Olha, a Rosita tá amarrada lá perto da igreja. Quando a gente sair, você vai vê-la. Está enxertada com o cavalo do cumpadre.

         - Puxa cumpadre, então se você não pincha...

         - É, cumpadre, a briga era dos dois e eu fiquei no meio. Se eu não sou rápido e pincho...

          Nessa altura, a fila toda riu e até o caixa aproveitou para fazer um relax:

         - Quem é o próximo a pinchar?

 

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