[Crônica] UMA BRISA BUSCANDO AS SAUDADES. by RUBENS BIZARRO ROMARIZ

12/01/2017 10:54

UMA BRISA BUSCANDO AS SAUDADES.

 

RUBENS BIZARRO  ROMARIZ

rb.romariz@ig.com.br

 

 

“Saudade –presença dos ausentes.  (Olavo Bilac)

 

 

        Ah! O tempo, afoito a tudo carrega, assopra como o vento levando todas as folhas secas do inverno. Fica a gente, tentando segurar o momento, querendo parar o tempo na ânsia impossível de prender nas asas do presente, quando então surge lá no fundo do coração uma pontada de saudade.

         Definir saudades como ausência dos ausentes, é a única forma de ativar a alma nas fotos guardadas na memória, como um grande amor, um carinho de mãe, a proteção de um pai, a alegria dos risos da infância, nas chuvas dos natais, na liberdade da adolescência...

         Ontem, no cair da tarde de um domingo preguiçoso, percebi um homem de muitos anos carregando uma bíblia. Por instantes aquele homem me impressionou e em saudades lembrei-me de um padre da infância que vivia sempre carregando um livro de orações entre as mãos, a caminho para a igreja, para a primeira missa das seis da manhã, cuja freqüência era sempre minguada de fiéis. Ao contrário; ás das oito era sempre repleta de garotos e garotas, jovens e adultos. Depois, sempre a meninada brincava nos jardins que circulavam a velha igreja – de bandidos e soldados, de cocheiros e patrulhas, onde o mais gordo era sempre escolhido como xerife, em cujo peito trazia uma tampinha de garrafa, cuja cortiça a prendia sob a camisa, era sempre uma reprodução dos filmes dos matines dos domingos.

         O progresso era lento, o fogão ainda consumia lenha, os açougues, armazéns e padarias trabalhavam anotando as compras em cadernetas, para somente no final do mês na soma feita no bico do lápis, achava-se o total da dívida, sem juros e sem correção monetária.

         Mas esse mesmo tempo que a tudo carrega na pressa de se alcançar o impossível, alicerçou a ciência que apareceu com o escopo de melhorar a vida, simplificar o trabalho, aumentar a velocidade e encurtar as distâncias. Assim, o automóvel, o telefone, a televisão, o vídeo, os filmes, os computadores, as novelas televisivas, os noticiários de todos os desastres, o valor maior da posse do dinheiro para a maior posse de bens, foi mudando e mutando a família, que perdeu a memória de um padre, dos passeios para ouvir as músicas das bandas, o sabor das pipocas salgadas, ou do algodão doce das gurizadas.

         Saudades, segredos da alma individual, memória das almas coletivas, simplicidade dos homens, nenhuma nave em direção a Lua,

Que mais dizer se as saudades me lembram de um padre carregando como o homem uma bíblia, me lembram o repicar dos sinos, a missa de Páscoa, as brincadeiras de criança, o achar as frutas maduras, o mergulho nas águas dos córregos, o nosso infantil de futebol, o almoço de domingo, meu pai, minha mãe, meus irmãos...

Ah1 saudades tantas, brisas pequena dor oculta na memória de um tempo que não sabia assoprar com rapidez.

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