[Crônica] O ANO COMEÇA A MORRER NO VERÃO. by RUBENS BIZARRO ROMARIZ

30/12/2016 17:20

 

O ANO  COMEÇA  A  MORRER NO VERÃO.

                                                

RUBENS BIZARRO  ROMARIZ 

rb. romariz@ig.com.br

 

        “Às vezes custa mais eliminar um só defeito, que adquirir cem virtudes.”   ( La Bruyère)

                           Verão, sempre chove. Para os poetas a chuva é sempre o céu chorando. Na verdade, quem chora nesse caso não é o céu, mas o homem. Dezembro é o último mês do ano, dias finais da “folhinha”, do calendário de doze meses de 365 dias, dias de 24 horas, hora de 60 minutos, e de 60 segundos.

         O final de cada ano será sempre um balanço, uma lembrança, uma busca da memória, da saudade ou da tristeza de um dia sem ontem e sem hoje. Sim, balanço, exame de consciência onde cada um acaba sempre confessando, julga se condena ou se absolve, sedo o juiz de si mesmo.

         Ainda ontem, em um super-mercado, uma senhora de idade que trazia uma guri em seu colo, me pedia para dizer o preço dois tipos de bolachas. Olhei-as e disse as duas tinham o mesmo preço de R$ 1,89. Pediu-me ainda para dizer qual era a melhor, e disse-lhe que a de leite era preferível a de maizena. Agradeceu-me dizendo: “moço, como é difícil não saber ler”. E foi-se ao caixa levando a confiabilidade de um moço que ela nem percebeu já não mais ser o moço. Aquela senhora carrega a culpa de um governo que a esqueceu.

        Raul de Leoni sonhava com... “um cristianismo ideal, que não existe, onde a virtude não precisasse ser triste, onde a tristeza fosse um pecado venial...”

         As pessoas buscam nos dias que faz o ano a felicidade, muitas sem se importar em pecados ou enganos. A maior parte nem percebe que a felicidade está oculta na inveja secreta e imensa dos honrados, dos cândidos, dos limpos. Sofrem com isso e, acabam sempre morrendo nos verões.

         A vida, de todos os dias, de todos os anos, será a memória, os segredos, os sorrisos e as dores, os amores de felicidade e de tristeza, de beleza e também de melancolia.

         Cada vida veste-se em um prazo, um tempo entre as noites e os dias.  O filósofo Sêneca diz que, não há por que pensar que alguém tenha vivido muito, por causa de suas rugas ou cabelos brancos: ele não viveu por muito tempo, simplesmente foi por muito tempo. Sêneca introduz aqui uma distinção entre viver e ser. Ao ocupados não vivem a verdadeira vida, eles simplesmente deixam-se existir e calculam o tempo apenas pelo relógio, e não pela vida interior.

         O último dia do ano é o momento de reflexão de todos os dias de nossa vida que ficou, é o momento de se desfazer de nossa roupagem e confessar todos os nossos erros.

         Verão é o tempo em que o céu sempre chora.

Um novo ano de esperança a todos os que sabem confessar e perdoar, é o desejo, desse escrevinhador.

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